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Artigos
Microcrédito
- Novembro/2002
Por: Henrique Costabile |
Com a participação dos presidentes do México e Gâmbia de Secretários de Estado de vários países e milhares de especialistas em micro-crédito, realiza-se em Nova Iorque, em novembro deste ano, o Microcredit Summit + 5. Este seminário tem como finalidade mostrar aos líderes mundiais a importância do micro-crédito como importante peça no combate à pobreza.
O Banco Mundial assumiu a missão de combater a pobreza com paixão e profissionalismo, colocando essa luta no centro de todas as suas atividades. A principal razão para este pensamento é que o Banco Mundial estima que existem atualmente 1.2 bilhões de pessoas vivendo em absoluta pobreza. As instituições de micro-crédito provêem crédito e outros tipos de serviços para os microempresários e autônomos para expandir seus pequenos negócios e melhorar sua qualidade de vida. O último seminário feito em 1997 lançou uma campanha de nove anos para atingir 100 milhões de famílias pobres no mundo até 2005. Segundo os organizadores do evento, o tema micro-crédito tem sido visto como uma “nota de rodapé” nas políticas e planos estabelecidos pelas agências de desenvolvimento. E, completam, que isto tem acontecido em razão da existência de paradigmas e desinformações que levariam os responsáveis pelas agências de micro-finanças a pensarem que os programas têm alto custo e são orientados para famílias pobres, difíceis de serem identificadas e motivadas. Se uma instituição trabalhasse apenas com este perfil de família, haveria um impacto negativo em suas finanças que poderia inviabilizá-la; e mesmo que uma instituição conseguisse atingir os mais pobres e conseguisse ser financeiramente auto-suficiente, então, neste caso ela estaria mitigando a vida das famílias mais pobres. O evento pretende reforçar que estes paradigmas estão errados. Vários temas serão discutidos para mostrar como o micro-crédito contribui para reduzir a pobreza. Temos registrado no Brasil uma tendência de redução dos postos de trabalho e uma crescente informalidade da mão-de-obra. Este quadro tem preocupado os nossos dirigentes sendo que o tema “emprego e renda” foi escolhido como prioridade para o próximo governo. Nos anos 80 através das ONGs e alguns poucos bancos comerciais iniciou-se a instauração do micro-crédito no país, um movimento que vem mobilizando diversas organizações e instituições de todo o mundo para reverter o processo de pobreza e inserir essa população no mercado produtivo e consumidor. É possível conseguir uma redução significativa na privação humana e mostrar que as forças da integração global e do avanço tecnológico podem ser mobilizadas para servir aos interesses dos menos favorecidos. Isso dependerá do funcionamento dos mercados, instituições e sociedades, uso de tecnologia adequada, bem como das opções de ação pública integrada. O micro-crédito é a forma de concessão de crédito à população pobre ou muito pobre de forma sistematizada e que inclui alguns procedimentos que não são adotados pelo sistema de crédito tradicional. Estes procedimentos incluem uma nova sistemática de concessão de crédito que é baseada na vontade do cliente em quitar a dívida e não no seu patrimônio ou renda. Além disso o processo de distribuição e acesso ao crédito deve ser completamente diferente do convencional. O objetivo é o atendimento a micro-empresários, micro-comerciantes, artesãos e pequenos prestadores de serviços, integrados aos setores formal ou informal da economia, visando sempre ao desenvolvimento sócio-econômico e garantindo ao grupo alvo, que é excluído do mercado financeiro formal, o acesso permanente ao crédito. Esta iniciativa prevê, antes de tudo, a utilização mínima indispensável de burocracia e a flexibilidade quanto à garantia de pagamento do crédito concedido. Uma das características principais dessa modalidade de empréstimo é a criação do papel do Agente de Crédito. Esta figura é uma criação muito importante para divulgar, assessorar e acompanhar a operação de crédito. Trata-se de um técnico especializado que mantém um contato próximo e contínuo com o cliente em seu local de trabalho, avaliando as potencialidades e características do micro-empreendimento. Essa ação busca reduzir a taxa de inadimplência, registrando sucesso em muitos casos. Outros itens peculiares e fundamentais são o tempo de vencimento de prazo mais curto e operações com valores relativamente mais baixos do que as realizadas pelo sistema de crédito convencional. O micro-crédito pode ser adotado por Organizações Não-Governamentais (ONGs), Sociedades de Crédito ao Micro-empreendedor (SCMs), Organizações de Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) e bancos comerciais que criem áreas específicas para atendimento desta demanda. Neste particular há uma grande oportunidade para os bancos que queiram se engajar neste processo, com o uso de cartões de identificação dos clientes, uso da internet e logística de distribuição, através do uso dos “correspondentes bancários”, que poderiam trabalhar como promotores de venda e distribuição dos produtos. O micro-crédito é uma resposta e um desafio para enfrentar a realidade nacional e uma medida prática e eficaz para a melhoria das condições sociais sem assistencialismo ou dependência exclusiva de subsídios públicos.
Não é o nível de pobreza do potencial cliente que determina o acesso e o impacto de programas deste tipo, mas o modelo e a forma como os serviços são oferecidos. Nem todos necessitam micro-crédito, mas a maioria irá se beneficiar através de um mundo mais justo e com oportunidades equânimes para todos.
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